Sábado. É manhã cedo. Tomo o pequeno-almoço na pastelaria perto de casa. O dia promete ser bonito. Está bom tempo e tenho uma autoestrada para atravessar até Reguengos de Monsaraz.
A convite da vereadora da cultura, Dina Simão, está marcada a apresentação do meu livro de poesia “Do teu âmago canta o meu arco-íris”. Acontecerá na feira do livro do Festival Literário. Mais uma vez, conto com a ajuda da minha amiga Vanda Sousa. De uma forma brilhante, já me tinha acompanhado no lançamento do livro em Lisboa.

É dia 25 de Abril, por isso, o evento vai concorrer com a celebração do Dia da Liberdade.
O recinto estava aparentemente pouco cheio. Digo aparentemente porque se foi criando uma conexão entre apresentadores e audiência. Esta união de sentimentos foi tão intensa que o espaço se transformou num abraço abrangente. Sem vazios pelo meio.

Este livro é dedicado à minha mãe. Trabalhou nos Correios, por onde passa muita população e tinha uma personalidade muito extrovertida. Era conhecida da maioria das pessoas presentes. Eu também sou conhecida da maioria dos presentes. Fui criada em Reguengos e lá vivi até ir para a faculdade. De personalidade recatada, tendo a criar laços fortes.
Assim nasceu o ambiente propício à emoção que o livro pede.
A música de Bach voltou a acompanhar-nos. Soou a “Orchestral Suite nº3 em D Maior MWV1068 parte II. Air on the G string”. Já vai fazendo parte destas aventuras literárias, assim como o fez durante a escrita do livro.
A Vanda abordou o seu sentir desta poesia. Incluiu a forma como lancei no papel este atravessar da doença oncológica materna e o luto. Foi intercalando com leituras de poemas. No final conversámos um pouco sobre o processo de escrita.

Questionada sobre a existência de um poema que represente o livro, disse:
«Sim, considero que existe um poema que representa o livro.
Contextualizando, há rotinas que os pais e os filhos estabelecem e que, inevitavelmente, desaparecem com a morte. Por vezes, uma das rotinas perdidas faz-se ouvir. Quando o dia termina e parece que a vida está toda arrumada, fica aquela sensação de que há algo que está a faltar. É inconsciente, não se sabe o que é, dá-se voltas ao pensamento, pára-se um momento a enumerar tarefas, nada por fazer, mas, então, o que falta? Demora a perceber-se o que é.
E eu escrevi um poema sobre este fenómeno e que, para mim, se tornou o centro do livro.»
Leitura poema:
Deixo aqui “O que faz falta”:
A ausência é pontual, não se atrasa um minuto
todos os dias ali está presente, à hora exacta
em que o coração se queixa sem saber do quê
o toque mudo do telefone a perturbar a noite
o hábito quebrado, tudo já dito antes de falado
às vezes ainda atendo e percebo a saudade tua
mãe.
Veja as fotos na galeria do site.
Sinopse do livro:
Num registo memorial, ligado à doença oncológica da mãe e ao amor filial, procura-se ultrapassar a finitude acontecida através de uma poesia intensamente visceral.
Assim se desenha este dizer:
"Partiste, mãe. No ímpeto de ocupar o largo vazio da tua ausência, moldei-te em poesia e poisei o barro iridescente na janela."
Disponível nas livrarias on line.
©Sara Alfenim
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Uma flor, de aparente fragilidade, desabrocha a partir de sementes profundamente enraízadas na terra. A flor exibe-se em beleza e oferecerá o seu lugar à continuidade do ser. E neste lugar de memória, a existência ir-se-á perpetuando de flor em flor até ao infinito. Daqui emanam, com os seus múltiplos e sucessivos perfumes, sen-
timentos, sentidos e palavras que abraçam
a eternidade.
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