O silêncio

«Deixei muitas palavras por dizer, no correr dos anos. Agora, percebo isso. Agora, que envelheço em anos de silêncios acumulados.»

In “Carta à Mãe”

És uma pessoa de silêncios? Compreendes-me, então. Compreendes o rio de palavras que corre por esses silêncios. Um rio volumoso. São contínuas as enchentes que transbordam para as margens, que fertilizam o pensamento. Um profuso rio inaudível. Por vezes, de água gelada a arroxear os pés que nela se atrevem a entrar. Um incómodo.

Compreendes-me? Tu, pessoa de silêncios? Como eu? São difíceis os silêncios. Ou não. Não. Digo mal. O que é difícil é encontrar o silêncio partilhado confortável. Quando um segundo par de pés entra na água e a água não fica gelada. O que é difícil é o encontro de silêncios mornos.

Enquanto não acontece esse encontro raro, não rara é a palavra ser forçada a sair do seu silêncio. Sair da água gelada do incomodado silêncio partilhado para o ar rarefeito das palavras vãs. Das palavras contrariadas.

É preciso aguardar um tempo de expressão. O tempo de expressão tem um risco que conheces, tu, pessoa de silêncios, como eu. O risco do tempo de expressão chegar atrasado. De todas essas palavras significativas, que correm silenciosas no leito abundante do rio, se tornarem inúteis.

Ainda assim,

«Sento-me na secretária de madeira castanha, pequena, do tamanho exacto que me permite encaixar uma cadeira e abrir um bloco de papel de carta.»

In “Carta à Mãe”

Escrevo. Uma carta. Solto as palavras da sua masmorra e apresento-as ao mundo. Inicialmente, a medo. Depois, mais certa de que a utilidade existe sempre. Útil, apesar da espera. Diferente do seu desenho inicial. Servirá um propósito de conforto, de libertação, de leveza, de memória. Importa construir a memória, desconstruindo a finitude. Numa carta de voz audível.

Esta carta leva-me ao teu encontro, pessoa de silêncios, como eu. O que transborda no leito do teu rio? Quando alcanças o teu tempo de expressão? Aguardemos.

Esperançosamente, em silêncios mornos.

«No temor da memória sem memórias, inicio um sussurrar de palavras e incito a caneta à escrita (…)»

In “Carta à Mãe”

Sinopse do livro:

Num registo memorial, ligado à doença oncológica da mãe e ao amor filial, procura-se ultrapassar a finitude acontecida através de uma narrativa poética.

 

«Proibi-te de partires, mãe, mas a irreverência sempre foi a tua marca pessoal. Como último recurso, aprisionei-te nesta carta onde vais ter de existir, donde quer que onde.»

Já disponível nas livrarias.

©Sara Alfenim

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Uma flor, de aparente fragilidade, desabrocha a partir de sementes profundamente enraízadas na terra. A flor exibe-se em beleza e oferecerá o seu lugar à continuidade do ser. E neste lugar de memória, a existência ir-se-á perpetuando de flor em flor até ao infinito. Daqui emanam, com os seus múltiplos e sucessivos perfumes, sen-

timentos, sentidos e palavras que abraçam

a eternidade.

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